Por Samuel de Jesus Monteiro de Barros

Se há um setor que sempre teve como vocação lidar com o imprevisível, é o de seguros. Afinal, quem mais se especializa em proteger contra o que não se pode prever? Mas eis que o imprevisível resolve se tornar rotina. Mudanças climáticas, revoluções tecnológicas, consumidores empoderados e reguladores com apetite por inovação estão obrigando as seguradoras a fazer algo que, até pouco tempo atrás, parecia tão improvável quanto um furacão em Copacabana: reinventar-se.
Segundo o relatório da Deloitte sobre as perspectivas para o setor em 2025, 76% das seguradoras globais já estão explorando tecnologias emergentes como inteligência artificial generativa e dados alternativos para prever riscos e personalizar ofertas, ou seja, não há exagero no que afirmo. No Brasil, o movimento é semelhante, com seguradoras buscando parcerias com startups e fintechs para ganhar agilidade e atender às novas demandas de distribuidores e clientes.
Mas não basta apenas colocar um chatbot simpático para responder dúvidas sobre apólices. A transformação necessita ser profunda, estratégica e, acima de tudo, sustentável. Afinal, o planeta está literalmente esquentando, e os sinistros climáticos não estão mais restritos a filmes de catástrofe. Em 2024, por exemplo, as perdas globais por desastres naturais somaram US$ 320 bilhões, dos quais apenas US$ 140 bilhões estavam segurados. Foi o terceiro ano mais caro desde 1980. E no Brasil, um volume imenso de municípios declararam estado de emergência ou calamidade por eventos climáticos nos últimos dez anos, acumulando prejuízos de R$ 327 bilhões.
Diante desse cenário, as seguradoras precisam se tornar protagonistas na luta contra as mudanças climáticas. Não apenas pagando indenizações, mas atuando como agentes de resiliência. A Tokio Marine, por exemplo, criou “hubs climáticos” que cruzam dados meteorológicos com registros de sinistros e simulações avançadas para orientar decisões em setores como agronegócio, infraestrutura e energia. Já a Allianz está usando imagens de satélite e arquivos KML para avaliar riscos de inundações em áreas rurais e urbanas, ajudando a precificar apólices com mais precisão e a evitar projetos em regiões de alto risco.
E se você acha que isso é coisa de filme de ficção científica, saiba que o seguro paramétrico já é uma realidade. Essa modalidade usa gatilhos objetivos, como velocidade do vento ou profundidade da inundação, para pagar sinistros automaticamente, sem precisar de perícia. A Allianz, por exemplo, oferece seguro paramétrico agrícola na Colômbia, protegendo mais de US$ 1,5 milhão em investimentos e 390 hectares em 45 municípios. A Swiss Re, por sua vez, cobre mais de 250 mil pequenos agricultores em Uganda com esse modelo.
No Brasil, a inovação também vem das insurtechs. A Azos, por exemplo, opera como MGA (Managing General Agent) em parceria com a Excelsior Seguros e a Swiss Re, emitindo apólices em até 30 segundos e prometendo pagar sinistros em até sete dias. Já a Simple2You, criada pelo grupo MAG no Sandbox Regulatório da Susep, oferece seguros por uso (pay-per-use) para bicicletas, celulares e esportes radicais. Porque, convenhamos, se o cliente só usa o seguro quando cai da prancha, por que pagar o ano inteiro?
Falando em Susep, a autarquia está de olho nas mudanças climáticas e lançou a Lei nº 15.042/2024, que institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE). Essa lei exige que seguradoras e resseguradoras adquiram ativos ambientais equivalentes a pelo menos 0,5% ao ano de suas reservas técnicas e provisões. Ou seja, além de proteger contra riscos, agora elas também precisam ajudar a reduzir a pegada de carbono do país.
E como toda boa história precisa de um toque de drama, vale lembrar que a tragédia climática no Rio Grande do Sul em 2024, que causou prejuízos de R$ 100 bilhões, teve apenas 6% dos danos cobertos por seguros. Isso mostra que ainda há um oceano de oportunidades (e responsabilidades) para o setor.
A CNseg, por sua vez, lançou a cartilha “Agenda CNseg – Adaptação Climática”, destacando o papel estratégico das seguradoras na construção de uma sociedade mais resiliente. O documento propõe diretrizes para prevenção de riscos, proteção das pessoas e promoção de soluções sustentáveis, alinhando-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e aos Princípios para o Seguro Sustentável (PSI).
E como toda boa transformação precisa de um empurrãozinho, o setor investiu R$ 19,6 bilhões em inovação entre 2023 e 2024, segundo a CNseg. Isso representa 2,63% da receita do setor, um aumento de 17% em relação ao ano anterior. É como se as seguradoras tivessem finalmente entendido que não dá para enfrentar o futuro com planilhas do Excel e carimbos de papel.
Claro, nem tudo são algoritmos e satélites. A experiência humana continua insubstituível. Clientes ainda querem empatia, clareza e aquele cafezinho com o corretor que sabe o nome do cachorro da família. A tecnologia pode ser o motor, mas o relacionamento é o combustível. E como diria aquele tio do churrasco: “Seguro é igual a guarda-chuva. Você só lembra que precisa quando começa a chover.”
O mercado de seguros está deixando de ser apenas um pagador de indenizações para se tornar um parceiro estratégico na construção de um futuro mais seguro, tecnológico e sustentável. E se o clima não dá trégua, que ao menos a inovação dê cobertura.
(16.01.2026)